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Que significado tem uma pandemia no cotidiano de mulheres trabalhadoras ?

São Paulo, 29 de maio de 2020

Instituto Ecoar para Cidadania

Que significado tem uma pandemia no cotidiano de mulheres trabalhadoras, muitas delas arrimo de família?

Para além do medo da contaminação, significa lidar com a impossibilidade da escola ou da creche onde deixar os filhos, se preocupar com a comida extra para suprir a alimentação que antes era feita no ambiente escolar e, ainda e sobretudo, enfrentar a queda brusca de renda, dada a escassez de demanda pelo trabalho que sempre exerceram.

As costureiras imigrantes do Coletivo Sartasiñani não seriam exceção a esta triste realidade. Enfrentariam a mesma situação de desalento não fosse o programa Tramando Junt@s que, ao perceber o cenário devastador que se aproximava, precisou responder a seguinte pergunta: Seria possível e justo deixar as mulheres entregues à própria sorte até que os cursos pudessem ser retomados e a confecção de uniformes se viabilizasse? E quando e como seria a volta à normalidade? O senso de pertencimento ao grupo continuaria o mesmo? Elas permaneceriam no projeto ou perante as dificuldades iriam buscar sobreviver em outros locais ou exercer outros trabalhos? Todo esforço empreendido pelo Projeto, todos os recursos investidos pela Fundação Laudes, teria sido tudo em vão? Esta batalha seria perdida para um vírus?

Tantas perguntas, noites mal dormidas e eis que se encontra no próprio problema a solução: flexibilizar o Plano de Ação do projeto, porém sem perder a essência e os preceitos do Tramando Junt@s e passar a produzir máscaras e aventais hospitalares como alternativa de geração de renda e manutenção do grupo produzindo unido, porém cada uma em sua casa respeitando as normas sanitárias.

Contando com a colaboração de profissional da área, aprendemos rapidamente todo o possível sobre tecidos, TNT, modelos, normas técnicas. Muita pesquisa e a colaboração de amigos da área têxtil nos ajudou a encontrar, em plena pandemia, os insumos adequados apesar da escassez dos produtos no mercado.

Contando com a concordância, acolhimento e suporte da Laudes Foundation, sem a qual nada seria possível e com o entusiasmo e vontade das nossas mulheres, fomos em busca de clientes por meio de nossa rede de relacionamento. Mais do que clientes, conseguimos parceiros que respeitaram nosso tempo e nossa política de não exploração de mão-de-obra, pagando um preço justo pelos produtos.

Mas a ousadia e engenhosidade do Tramando Junt@s não teria sido bem sucedida não fosse a garra e comprometimento do Coletivo Sartasiñani. As 16 mulheres agarraram a oportunidade com enorme vigor, aprenderam a aprender de forma remota, a participar de reuniões por meio de ferramentas eletrônicas superando suas dificuldades com o idioma e com a escrita.

Deram início à produção, trabalhando em suas casas higienizadas conforme as normas técnicas, superaram muitos obstáculos e, aos poucos, foram progredindo na costura, tornando-se mais seguras e produtivas. Passaram a agregar outras pessoas da comunidade ao trabalho. Novas costureiras para expandir a produção e atender os pedidos dos clientes sem atraso, jovens rapazes para embalar os milhares de aventais e máscaras mais rapidamente, outros para buscar os tecidos e fazê-los chegar às casas das costureiras e, de repente, não mais que de repente como dizia o poeta, elas eram parte de uma verdadeira linha de produção. Em grande parte construída por elas mesmas, apesar da orientação e suporte constante da equipe de gestão e supervisão do TJ.

A pandemia está sendo uma experiência interessantíssima para elas e para todos nós. Apesar de todas as dificuldades que um projeto concebido e gerido remotamente pode trazer, o comprometimento dos gestores e financiadores e a vontade férrea de não desistir, de não se render ao vírus, à situação econômica, à recessão, de não abrir mão deste projeto que vem mudando a história de muitas perdas que se repete de geração a geração na vida destas famílias, as faz vencedoras.

E hoje, faz gosto ver como se sentem orgulhosas a cada vez que o caminhão da transportadora contratada é carregado com a produção do coletivo, embalada propriamente, etiquetada, com selo de identificação da costureira. Definitivamente deixaram de ser parte de uma engrenagem viciosa de produção de confecção para a feira da madrugada, abandonaram para sempre a baixa autoestima que as fazia aceitar qualquer acordo por medo da fome e da violência, sentiram que são capazes de enfrentar desafios e vence-los.

Quando nos recordamos que apenas um mês antes da pandemia, essas mesmas mulheres nos diziam durante uma oficina que temiam não ser capazes de participar do Tramando Juntas, que tinham tanto medo de não conseguir...nos regozijamos por ter contribuído para que, postas à prova, desafiadas por um vírus, fossem em frente e vencessem.



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